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O livro

Edith ao piano: o que o talento pode — e o que não pode comprar

Música, trabalho e prestígio em A filha do artista: a formação de Edith revela a distância entre ter uma capacidade e poder decidir a própria vida.

Teclas de piano, cordas de harpa e um caderno de desenho em um ambiente iluminado pela janela.
Ilustração editorial sobre a formação musical e artística de Edith.

Uma jovem toca piano. Um homem segura um livro aberto, mas não consegue ler. A música o perturba; ele fecha o volume, torna a abri-lo, levanta-se e sai. Vista apenas de longe, a cena poderia ilustrar o triunfo do talento: a artista domina a sala, suspende a atenção do ouvinte e o obriga a sentir. Vista de perto, mostra também sua impotência. Edith consegue comover Valdomiro. Não consegue saber o que ele fará com essa comoção.

A passagem aparece no capítulo III de A filha do artista, de Anália Franco. Edith é uma órfã acolhida na Fazenda Bela Vista por sua madrinha, Florisa. Valdomiro pertence à família proprietária e está comprometido com outra jovem. Entre os dois, a música cria uma intimidade que a organização da casa não autoriza com a mesma facilidade.

O piano permite formular uma pergunta menos celebratória, e mais interessante, sobre a educação artística: em que circunstâncias uma habilidade se transforma em renda, prestígio ou liberdade? O romance responde de maneiras diferentes. Confundi-las empobrece a história de Edith — e nossa compreensão do trabalho de quem vive de arte.

Uma herança que não cabe num sobrenome

O título parece anunciar uma transmissão direta: o artista tem uma filha, e ela herda sua sensibilidade. O capítulo II complica essa linha reta. Álvaro de Souza integra uma pequena companhia teatral itinerante. Não é apenas o intérprete exposto aos aplausos. Ensaia cantos, trabalha com cenários e pintura, leciona música e desenho. A arte aparece primeiro como um conjunto de ofícios, realizado entre deslocamentos e necessidades de sustento.

Hermantina, sua mulher, não ocupa o palco, mas também transmite conhecimento. Educada num colégio do Rio de Janeiro, acompanha os estudos da filha e se torna sua mestra durante as pausas de uma doença prolongada. O que Edith aprende depende do trabalho dos dois, não de uma capacidade paterna que passasse intacta de uma geração a outra.

O romance menciona ainda uma pequena herança recebida por Hermantina. Durante algum tempo, esse recurso e as aulas do marido mantêm a família. Depois, os gastos e as dificuldades associados à doença desfazem o equilíbrio. Não há, portanto, uma pobreza imóvel desde o nascimento: há perda de condições. Essa diferença importa porque impede que o sofrimento seja tratado como atributo natural da personagem. A história familiar está no volume I, capítulo II.

O pai que ensina também pode faltar

Álvaro volta às viagens com a companhia teatral para enfrentar a precariedade. As ausências se prolongam e ele se torna menos atento à mulher e à filha. Mais tarde, ao reconhecer o talento de Edith, retoma o empenho em sua formação. O livro não oferece simplesmente um pai exemplar, injustiçado pela sociedade porque escolheu ser artista.

A contradição é mais fecunda. Um homem pode transmitir conhecimentos valiosos e falhar no cuidado. Pode amar a filha e projetar nela os próprios triunfos. Álvaro imagina vê-la estrear nos teatros da Corte; Hermantina não aprova esse projeto. A carreira que ele antevê como glória não é um destino consensual dentro da família.

Nesse ponto, “herdar o talento” deixa de ser uma expressão inocente. Edith recebe técnicas, repertório e estímulo, mas também expectativas. Sua arte já chega acompanhada de planos feitos por outras pessoas. A questão não é decidir se o pai a beneficia ou a prejudica em bloco. É perceber como formação, afeto e ambição podem se misturar no mesmo gesto.

Edith não espera passivamente por um protetor

Há um detalhe que merece sair da margem das apresentações do romance: depois da morte de Álvaro, Edith dá aulas a meninas da vizinhança em sua própria casa. O texto afirma que a renda atende às necessidades modestíssimas dela e da mãe. A educação artística não é apenas um ornamento, nem uma promessa abstrata de emancipação. Ela já se converteu em trabalho.

Mas obter alguma renda não equivale a alcançar segurança. A atividade acontece dentro de um cotidiano de cuidado intensivo, com a mãe confinada ao leito. A aluna de ontem ensina enquanto continua sendo filha cuidadora. Seu tempo não está inteiramente disponível para expandir uma carreira, mudar de cidade ou aceitar qualquer oportunidade.

A cena doméstica coloca lado a lado três trabalhos: aprender, ensinar e cuidar. Só um deles aparece diretamente como fonte de recursos. Os outros tornam esse ensino possível e, ao mesmo tempo, restringem suas condições. O livro nos convida a reconhecer uma trabalhadora antes que a vida na fazenda a apresente sobretudo como dependente.

Por isso, não é exato concluir que “a educação não serve para nada” na história de Edith. Ela serve, e muito. O que não faz é abolir por si mesma a doença, o preconceito, a falta de patrimônio e a fragilidade dos vínculos que sustentam uma vida.

Na sala, o valor muda de natureza

Ao chegar à Bela Vista, Edith não perde suas capacidades. Muda o ambiente em que elas são reconhecidas. A música deixa de aparecer principalmente como aula remunerada e passa a circular também como prazer doméstico, marca de distinção e linguagem amorosa.

A diferença se torna concreta na cena do piano. Carlinda insiste para que a amiga toque; Edith hesita, olha para Valdomiro e acaba cedendo. Seu repertório inclui Chopin, Schumann e Schubert. A escolha de uma melodia de Chopin é acompanhada pelo comentário de que a tristeza dessas composições encontra afinidade com a sua. A narrativa aproxima execução e vida interior, fazendo a música dizer o que a jovem não consegue declarar.

Valdomiro, porém, conserva uma prerrogativa que ela não possui da mesma maneira: sair. Enquanto Edith permanece na sala, ele interrompe sua escuta, recebe um cavalo preparado e parte pela estrada. A intensidade do sentimento não distribui igualmente a liberdade de movimento. A música os aproxima, mas a cena termina com os dois em posições materiais muito distintas.

Ser admirada tampouco significa ser acreditada. O ouvinte pode se comover com a pianista sem compreender suas intenções; pode atribuir sedução calculada a uma ação que o leitor sabe ser inocente. O talento amplia a visibilidade da protagonista, mas visibilidade também é exposição ao julgamento.

O preço de transformar tudo em vocação

A palavra “dom” pode esconder o esforço que o romance descreve. Edith estuda, pratica, recebe orientação e ensina. O texto a idealiza, mas não deixa de apresentar uma formação. Reduzir essa trajetória a um presente natural seria repetir, no comentário, o apagamento do trabalho que a própria narrativa nos permite corrigir.

Também seria um erro medir o valor da arte apenas por sua capacidade de produzir independência econômica. A música dá forma ao luto, cria companhia e abre uma experiência de beleza. Esses efeitos não se tornam desprezíveis porque não pagam todas as contas. O problema aparece quando sua grandeza é usada para dispensar as condições de vida de quem a produz.

O percurso de Edith mantém as duas exigências: reconhecer aquilo que a arte oferece e perguntar pelo que a artista necessita. Uma sociedade pode cultivar o bom gosto enquanto conserva seus artistas em posições frágeis. Pode aplaudir uma mulher ao piano e continuar considerando suspeito que ela apareça num palco ou determine o próprio destino.

O que fica quando o som acaba

A melhor maneira de voltar à cena não é perguntar apenas se Valdomiro se apaixonou. É observar o que permanece depois que ele sai. Edith continua na casa de outra família. Carlinda tenta entender a brusquidão do tio. A música foi executada com êxito, mas não resolveu o desencontro.

Essa desproporção é a inteligência da passagem. O romance não precisa negar a força da arte para mostrar seus limites sociais. Ao contrário: quanto mais persuasiva a execução, mais nítido se torna o que a persuasão, sozinha, não pode garantir.

Edith herdou habilidades e uma história de trabalho. O direito de dispor delas, contudo, não veio incluído na herança.

Referências e caminhos de leitura

  • Anália Franco, A filha do artista, volume I, capítulos II–III: BBM/USP, exemplar integral. As cenas da educação, das aulas particulares e do piano sustentam esta análise.
  • Para outro romance que articula música e relações familiares, Júlia Lopes de Almeida, A falência, texto integral no Project Gutenberg. A personagem Ruth oferece um caminho comparativo; a aproximação não pressupõe influência entre as autoras.

Conheça a edição Busleyden de A filha do artista.